quarta-feira, 23 de abril de 2014

CINE GLÓRIA DE SÃO JOÃO DEL-REI: sessenta e sete anos servindo a sétima arte

Por Francisco José dos Santos Braga


Francisco Cupello (foto de DIÁRIO DO COMÉRCIO)



Em homenagem a Francisco Cupello, fundador do Cine Glória, e aos confrades e colaboradores deste blog, respectivamente Dra. Elizabeth dos Santos Cupello e Dr. Mário Pellegrini Cupello, DD. Presidentes da Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto, de Valença-RJ.



I.  INTRODUÇÃO


Parece haver um consenso entre os escritores que se ocuparam da história do Cine Glória de São João del-Rei: o fato de ter tido excelentes e experientes gestores desde a sua fundação possibilitou ao velho Glória prestar excelentes serviços à comunidade são-joanense. Desde sua fundação até hoje, já passaram por sua administração: Empresa F. Cupello & Cia. (21/08/1947-31/01/1961), Lombardi & Resende Ltda. (31/01/1961-31/12/1979) e Wellerson Itaborahy, carinhosamente conhecido por "Lilinho" (31/12/1979 até hoje). Dá-se como certa a saída voluntária do Sr. Lilinho para o mês de maio de 2014, deixando a gestão do Cine Glória e de suas coligadas (Cine Glória Shopping e de duas Cine Glória videolocadoras) para seus três filhos, Wellerson Itaborahy Júnior, Wallace Itaborahy e William Itaborahy.

O fato de ser o único cinema atuante das redondezas, segundo SOBRINHO [2006, 61-64] deve-se a três fatores: "a) — o prédio é um próprio municipal e, portanto, imune, quem sabe, à tentação de se converter em outras finalidades mais lucrativas; b) — a existência, anexa, de uma locadora de fitas para videocassetes, que lhe supre as possíveis perdas com a projeção cinematográfica; c) — o idealismo de seu atual locatário, um verdadeiro apaixonado da arte do cinema, a quem aproveitamos o ensejo para louvar, parabenizar e agradecer." Neste último caso, ele se refere à presença marcante de Wellerson Itaborahy na direção do cinema. Tendo o Cine Glória sido homenageado pelo mesmo autor em capítulo do seu livro intitulado "Cinquenta Anos do Cine Glória", será reproduzido aqui trecho esclarecedor sobre os seus primórdios.

Neste artigo veremos o espírito profissional e empreendedor da primeira firma que fundou o Glória. Conforme feliz expressão de Mário Pellegrini Cupello, sobrinho de Francisco Cupello, homenageado aqui, no seu artigo "Revitalização dos Cinemas", "a biografia de Francisco Cupello (1911-1979), rica em sua essência, é um exemplo de honestidade, persistência, dedicação ao trabalho e amor ao Brasil, qualidades que o tornaram um empresário bem sucedido, sem que jamais perdesse a simplicidade e o respeito ao próximo. Amou tanto o Brasil que se nacionalizou brasileiro por decisão pessoal, sem nunca esquecer suas raízes italianas. (...) Consta em seu livro de memórias que, além da construção do Cine Glória, ele reformou, completamente, o Teatro Municipal de São João del-Rei. O apreço pela cultura parece, portanto, ser uma tradição familiar."

Aqui serão vistos fatos anteriores à inauguração do Cine Glória, a própria cerimônia de inauguração, conforme cobertura de O CORREIO e DIÁRIO DO COMÉRCIO, ambos são-joanenses, bem como as repercussões de tal iniciativa, sob a ótica deste último, que deu ampla cobertura não só à festa de inauguração propriamente dita, mas também a fatos anteriores ocorridos na Empresa F. Cupello & Cia. Ltda. e a arranjos necessários à definitiva instalação da sala de cinema, em artigo intitulado "Os Cinemas Locais", subtítulo "Instalação do Microfone, Marcador e Gongo - Concurso - Redução de Preços".

Em todos os textos, foi respeitada a grafia de época.



II.  ANTECEDENTES



Dr. Gabriel Martins Vilela

Com destino aos Estados Unidos e Canadá deverá seguir dentro em poucos dias o dr. Gabriel Martins Vilela, socio da firma F. Cupello & Cia arrendataria dos cinemas locais. A excursão do acatado e operoso homem de negocios prende-se a estudar de perto o comercio cinematografico na terra do cinema de onde, no seu regresso trará, por certo, inovações modernas a serem introduzidas nos cinemas de propriedade da Empresa nos Estados de Minas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Com essa excursão muito lucrarão os cinemas locais, como é desejo do ilustre viajante.

Fonte: DIÁRIO DO COMÉRCIO, São João del-Rei, p. 4, 2 de julho de 1947.



III.  INAUGURAÇÃO DO CINE GLÓRIA





Inaugura-se amanhã o Cine Glória

Cine Glória, atuante ainda hoje, 21/04/2014

Está marcada para amanhã a inauguração do Cine Glória na Avenida Tiradentes.
O novo cinema acha-se instalado em imponente e confortável prédio de construção recente, mandada executar pela firma F. Cupello e Cia. Ltda, em cumprimento de contrato firmado com a Prefeitura local.
De linhas sobrias, mas elegantes, a nova casa de diversões vem enriquecer o patrimônio sanjoanense e possibilitar à população um centro de distração à altura do seu progresso e cultura.
Embora as clausulas do contrato permitissem o aproveitamento do aparelho de projeção e das velhas cadeiras que estão no Cine Capitólio, os senhores F. Cupello & Cia, desejando corresponder às gentilezas e preferências do público, numa demonstração de apreço e elevado conceito que lhes merecem os sanjoanenses, mobiliaram o novo cinema com poltronas confortáveis e adquiriram dois ótimos projetores dos mais modernos que existem no mercado.
Realmente, o Cine Glória que se inaugura amanhã nada deixa a desejar e pode competir vantajosamente com os seus congeneres das grandes cidades.
A sessão inaugural será às 18 horas com um variado programa de filmes; para essa sessão os ingressos serão gratuitos. Às 20 horas haverá segunda sessão, quando será exibido o maravilhoso filme "Vivo para cantar", estrelado pela "star" Diana Durbin.
Ao ensejo dessa inauguração, "Diário do Comércio", que por ela tanto se bateu, felicita a firma F. Cupello & Cia. pela magnifica realização que marca uma fase de progresso na vida de São João del-Rey.

Fonte: DIÁRIO DO COMÉRCIO, São João del-Rei, p. 1, 20 de agosto de 1947.


Inauguração do Cine Glória

Quinta-feira, às 18 hs., foi inaugurado o Cinema Glória, pela Empresa F. Cupello & Cia. Ltda., nesta cidade, à Avenida Getúlio Vargas.
O ato, revestido de certa simplicidade, foi assistido por grande número de pessoas, sob a orientação do sr. José Belini dos Santos, redator do colega local — o Diário do Comércio — com a presença de autoridades locais, notadamente o sr. Governador da cidade, e pessoas gradas, antes convidadas.
Após a cerimônia inaugural, que constou da entrega simbolica da chave do edificio ao sr. Prefeito, foi exibido, na tela, um programa leve e interessante, seguindo-se após a exibição do grande filme "Vivo para Cantar" que agradou plenamente.
Obra retardada na sua construção por efeito da falta de material verificada no periodo da guerra, é finalmente entregue à utilidade do povo, que assim tem mais uma casa de diversão — um novo cinema, quando o cinema é, hoje, o divertimento preferido do povo.
É justo dizer-se de passagem que essa obra se deve à ideia do ex-prefeito dr. Antonio Viegas, que fez questão de incluir no contrato com a Empresa a construção dêsse edificio e a instalação de mais um cinema, visando favorecer os diletantes e aumentar o patrimonio municipal.
Ao tempo, a cidade não oferecia as possibilidades lucrativas atuais; daí ter sido modesto o ajuste sôbre a construção e instalação do novo cinema. A Empresa Cupello, compreendendo, entretanto, que o seu próprio interesse aconselhava instalação melhor que a ajustada no contrato, foi além do previsto.
Todavia, não fez o que poderia ter feito quando a cidade cresce vertiginosamente, alargando as possibilidades futuras, com um presente já muito movimentado nas sessões que, aos domingos, começam às 10 horas. E tem a Empresa um contrato longo.
Esta noticia vem atrazada e não encerra pormenores da  inauguração, porque um qui pro quo nos afastou da sessão inaugural, pois, residindo fora o nosso redator, não foi ele em tempo avizado de que o sr. gerente havia estado na redação para convidar este periódico.
Justificando o motivo do atrazo desta noticia, almejamos à Empresa F. Cupello o maior êxito para o Cinema Glória.

Fonte: O CORREIO, São João del-Rei, p. 2, 31 de agosto de 1947.


Reportagem sobre S. João del-Rei

Cumprindo seu util e interessante programa de reportagens no interior dos Estados, principalmente nas cidades históricas, está na cidade a caravana da Rádio Globo, integrada dos senhores Celestino Silveira, um dos mais cultos locutores do "broadcasting" nacional, e Vasco Lima, brilhante redator e rádio técnico da organização.
Essa divulgação está sendo patrocinada pelo sr. Francisco Cupello, sócio da firma Cupello & Cia., que num gesto muito cavalheiresco e profundamente sensível aos sanjoanenses deseja propagar, através das ondas sonoras, o nosso progresso e os nossos costumes.
Toda a solenidade da inauguração do Cine Glória será irradiada, e, ainda hoje às 21½ horas, haverá uma irradiação pública da reportagem feita pelos nossos brilhantes colegas de "O GLOBO".

Fonte: DIÁRIO DO COMÉRCIO, São João del-Rei, p. 1, 21 de agosto de 1947.


A inauguração do CINE GLÓRIA

Constituiu acontecimento marcante nesta fase de progresso que atravessa São João del-Rey a inauguração do Cine Glória, realizada na tarde de anteontem na Avenida Tiradentes.
O ato foi solene e assistido pelas autoridades locais e grande público.
Precisamente às 18 horas teve início a cerimônia inaugural com a entrega da chave simbólica ao snr. Prefeito Cristóvão Braga, pelo nosso redator José Bellini dos Santos que disse, em rápidas palavras, do significado do acontecimento e poz em relêvo o melhoramento realizado que vem possibilitar à população sanjoanense mais um ponto de evasão das labutas quotidianas.
Recebendo a chave falou o sr. Prefeito em nome da cidade, terminando por felicitar a firma F. Cupello & Cia. pela realização que vinha satisfazer um compromisso contratual e uma antiga aspiração do povo.
Terminadas as orações, vivamente aplaudidas pela assistencia, teve lugar a benção do edificio pelo operoso e querido vigário da paróquia de N. S. do Pilar, revmo. padre Mauro Faria, tendo a esse ensejo pronunciado ligeiras palavras de congratulações e votos para que a nova casa de diversões preencha as suas finalidades educativas.
Seguiu-se a sessão cinematográfica oferecida pela firma F. Cupello & Cia. ao povo.
Toda a cerimônia inaugural foi esplendidamente irradiada pela ZYI-7, emissora local, atuando como locutor o sr. Celestino Silveira, da Rádio Globo, em visita a esta cidade.
Antes da inauguração autoridades e pessoas gradas ocuparam o microfone para pôr em fóco o acontecimento e felicitar o sr. Francisco Cupello pelo empreendimento.
O Cine Glória quer interna e externamente é um edificio que honra a cidade, constuido para substituir o velho Cine Capitólio, será uma casa de diversões onde as classes menos favorecidas poderão, com muito conforto, gosar da sua diversão predileta e educativa.

Fonte: DIÁRIO DO COMÉRCIO, São João del-Rei, p. 1, 22 de agosto de 1947.



OS  CINEMAS  LOCAIS

Instalação do Microfone, Marcador e Gongo - Concurso - Redução de Preços

Ainda está na lembrança do público, que frequenta os cinemas locais, a brilhante solenidade da inauguração do CINE GLÓRIA.
Por essa ocasião, se verificou o zelo da empresa Cupello em proporcionar aos "habitués" de seus cinemas a melhor assistencia, tanto em solicitude como tambem em conforto.
Basta dizer que, pelo contrato, a empresa poderia remover para o novo cinema as cadeiras do Capitólio. E seria isso uma afronta para o público, de vez que aquelas cadeiras estão imprestáveis, na maioria quebradas.
Seria mesmo que colocar num "gentleman" bem vestido, de rica indumentária, um chapéu de palha rôto. A empresa compreendeu isso e, numa prova de aprêço e consideração para com a cidade, fez colocar no CINE GLÓRIA novas e confortáveis cadeiras.
Mas não ficaram aí as providencias da direção dos nossos cinemas, conforme se verá pela entrevista que o sr. José Gomide, incansavel gerente da empresa, vem de nos conceder.
Ouçam-lhe a palavra:
— A empresa Cupello, na pessoa do seu chefe, sr. Francisco Cupello, amigo indefectivel desta cidade, sempre teve para com esta "urbs" o maior aprêço.
Si às vezes incorremos em falhas, estas são sempre de ordem imprevista. O nosso desejo, — meu e da empresa, — é sempre concorrer para o agrado do público.
E isso, graças a Deus, temos conseguido, a não ser na exibição, felizmente rara, de filmes menos apreciados.
Mas, neste ponto, nem sempre pode influir o nosso desejo e, daí, não podermos afastar estes aborrecimentos aos nossos amáveis e distintos "habitués".
Temos, entretanto, para o futuro uma série de fitas magnificas, verdadeiras joias cinematográficas, de várias fábricas, que serão exibidas em nossos cinemas, dentro de poucos dias.
Por muitos mêses, poderemos fornecer ao nosso público trabalhos de primeira linha, filmes de renome, que se vêm impondo à critica de toda a parte, desde os Estados Unidos.
Além disso adotaremos várias medidas afim de tornar estes filmes acessiveis a todos. Os preços serão populares, reduzidos, nas 4ªs, 5ªs e 6ªs feiras, a começar de hoje e, bem assim, daremos "matinées" aos domingos aos preços de Cr$2,00 e 1,00 no Teatro, e 1,50 e 1,00 no "Glória".
Muitas pessoas, conforme já tive ocasião de verificar, — continua o sr. José Gomide, — pensam que os aparêlhos do CINE GLÓRIA são velhos, transferidos do "Capitólio".
Absolutamente. São todos novos e da conhecida marca "SOLIDUS", proporcionando ótima e nítida projeção e com dispositivos de sons os mais modernos e perfeitos.
Instalamos tambem no "Glória" microfone, marcador de partes e gongo, e está em andamento um artistico pano de anúncios.
Com estes aparêlhos possibilita-se ao "habitué" atrazado saber a parte do filme que se passa no momento de sua chegada e, bem assim, pelo microfone, chamar-se um médico ou qualquer pessoa que esteja assistindo ao filme.
Para isso, como também para procura de objetos esquecidos, coisa tão frequente em cinemas, é bastante o interessado entender-se com a gerência, que será imediatamente atendido.
O Teatro tambem terá brevemente novas instalações. Já foi colocado alí, na semana passada, um microfone, que muito serviço prestará ao público, principalmente no que se refere a chamados de médico.
Estamos cogitando de instituir um interessante concurso que proporcionará aos frequentadores de nossos cinemas valiosos prêmios, inclusive rádios e ferros de engomar elétricos.
Este concurso será lançado  dentro de poucos dias, para o que haverá, na primeira semana, uma grande redução de preços nas entradas de ambos os cinemas.
Vê, pois, o amigo jornalista que as nossas disposições para com o público que honra os nossos cinemas são as melhores e que a nossa preocupação precípua é proporcionar-lhe cada vez mais conforto e agrado.
Com relação aos filmes é enorme a lista deles, entre os quais cito, de memória, os seguintes que serão exibidos durante este mês de setembro:
"Anão Gigante", uma comédia de grande agrado, com Abott & Costello. No mesmo programa inicio do seriado "Aliado Misterioso". "Querida", com Gale Estroy e Conrad Nagel. "A VOLTA DO CISCO KID", com Duncan Reynald, filme de aventuras. "ALMA CIGANA", em tecnicolor, com Maria Montez e Sabú, um filme monumental (Universal). "O Ponteiro da Saudade", com Judy Garland. "A Indomavel", com John Wayne e mais um elenco extradinario. "A Mina Assombrada", com Jonny Brown. "A MORTE DE UMA ILUSÃO", com um elenco de primeira ordem. "A CRUZ DE LORENA", com Jean Pierre Aumont, um drama que fará vibrar todos os corações. "TANGER", o filme-deslumbramento com Maria Montez e Sabú. "Rainha dos Corações", um filme de extraordinario sucesso. "O Rei do Ring", um filme movimentadissimo com os Anjos de Cara Suja. "Quasi uma Traição", um grande drama. "TAMBEM SOMOS SERES HUMANOS", com Burgess Meredith, drama de intensa emoção e ação violentissima.
A Empresa chama a atenção do seu querido público para esta linha de filmes de incontestavel valor, filmes estes de exibição simultânea com o Rio.
E com essa enumeração de filmes, terminou o snr. Gomide, sempre com a gentileza que lhe é tão natural, a entrevista que nos concedeu.

Fonte: DIÁRIO DO COMÉRCIO, São João del-Rei, p. 4, 10 de setembro de 1947.

Espaço interno do atual Cine Glória: 402 cadeiras

 Dimensões da tela do atual Cine Glória: 16,5 mX7,5 m

Em texto intitulado "Cinquenta Anos do Cine Glória", capítulo de seu livro, SOBRINHO [2006, 61-64] nos informa que o Teatro Municipal esteve arrendado à firma F. Cupello & Cia., de 1940 a 1961, conforme relação de Antônio Guerra, quando então voltou a ser exclusivamente espaço teatral. Registra ainda que 
"teria F. Cupello na década de 40 procedido a uma reforma interna do Teatro (...).
É preciso ressaltar que, além do Teatro, algumas dessas concessionárias exploravam simultaneamente, o PAVILHÃO e, a partir de 1947, o CINE GLÓRIA, localizados, sucessivamente, aos fundos, com frente para a Av. Getúlio Vargas que, nesse mesmo ano, passava a chamar-se Av. Tiradentes. 
Em 21 de agosto de 1947 (...) aconteceu a estreia do atual e único remanescente cinema de São João del-Rei, o CINE GLÓRIA. Sua inauguração fora prevista para uma semana antes, exatamente no dia 15 de agosto, consagrado a Nossa Senhora da Glória, razão também do seu nome. Por razões outras, porém, a estreia teve de ser procrastinada por sete dias.  
Sua construção foi realizada de acordo com cláusulas contratuais com a Prefeitura e para substituir o antigo CINE CAPITÓLIO, pela EMPRESA F. CUPELLO & CIA. LTDA, então arrendatária do Teatro. (...) 
São João del-Rei ganhava, assim, com aumento de seu patrimônio municipal, mais um ótimo espaço de lazer, com 1.200 lugares e dois modernos projetores, construído exatamente no local onde muito antes existira um Ringue de Patinação e onde, em 1913, a Empresa Faleiro, construíra, para substituir o Teatro Municipal, em reformas, um provisório Pavilhão em cujas modestas instalações, exibiam-se filmes a preços populares, ao término de cada parte, segundo Sebastião Cintra, eram executados números musicais. (...) 
Com o fechamento do cinema de Barbacena, São João del-Rei será a única cidade, destas redondezas, que ainda preserva um cinema atuante. E isto se deve, especialmente, a três fatores básicos que, felizmente, concorrem aqui: a) — o prédio é um próprio municipal e, portanto, imune, quem sabe, à tentação de se converter em outras finalidades mais lucrativas; b) — a existência, anexa, de uma locadora de fitas para videocassetes, que lhe supre as possíveis perdas com a projeção cinematográfica; c) — o idealismo de seu atual locatário, um verdadeiro apaixonado da arte do cinema, a quem aproveitamos o ensejo para louvar, parabenizar e agradecer. 
Louvores e parabéns que, de bom grado, estenderíamos a todas as pessoas que, nesta longa história do cinema em São João del-Rei e nos cinquenta anos do Cine Glória, dedicaram suas vidas a tão bela causa. Na certeza de que muitos ficarão esquecidos por falha da memória histórica, a todos homenageio lembrando apenas: Joaquim Dias, com 44 anos de dedicação no Capitólio e no Glória; Madalena e Santinha Pato; Seu Benevides e Seu João Lopes, gerentes ambos da Cupello; Henrique e Nequinha Guerra; Miúdo, Mariinha e Geny; Sabino e Gomide; Peneu e Zé Tripa; Chico, Antônio e Gelson. ¹
Não fossem aqueles fatores e esses dedicados heróis, era bem possível que nós, hoje, nos lembrássemos, com saudades, de um CINE GLÓRIA, como nos lembramos do ARTUR AZEVEDO ², vendo seus prédios e espaços susbituídos por hotéis, igrejas, supermercados, senão até mesmo por estacionamento de veículos." 


IV.  NOTAS


¹  Cabe aqui acrescentar nomes que me ocorrem de servidores inesquecíveis, além dos já mencionados:
no Clube Teatral Artur Azevedo: Farid Resgalla, Zebedeu, Wilson (irmão do treinador Zito), Zezé Baleiro (vendedor de balas, drops, pipoca e doces antes dos espetáculos), Sr. Aristides (que portava uma penca de chaves para abrir e fechar o cine) e Sabino (pintor de placas); no Cine Glória e no Teatro Municipal: Chala Sade, e apenas no Cine Glória: Marco Antônio Camarano, autor teatral e diretor de teatro.
Inesquecíveis ainda no Cine Glória e no Teatro Municipal foram as matinées das 10 horas da manhã, o seriado "Cidade Infernal", com o personagem Hugo, e a bombonière que ficava do lado de fora do salão.

²  Embora o Clube Teatral Artur Azevedo tenha paralisado suas atividades na década de 70, só em 1985 encerrou definitivamente suas atividades, quando foi vendida a sua sede, transformada no Supermercado Sales, no bairro do Tijuco.



V.  REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS



ALMEIDA, E.F.: Retroceder nunca, render-se jamais, Jornal O Tempo, reportagem de 17/07/2002, disponibilizado in http://saojoaodelreitransparente.com.br/organizations/view/87.

CUPELLO, M.P.: Revitalização dos Cinemas, artigo publicado no Blog de São João del-Rei em 18 de agosto de 2011.

DÂNGELO, J.: Em 35 mm, edição da Gazeta de São João del-Rei de 26/05/2007, coluna "Pelas Esquinas".

DIÁRIO DO COMÉRCIO: São João del-Rei, várias edições de 1947.

JORNAL HOJE EM DIA: Lilinho, o velho herói da cidade, reportagem de 30/06/2002, disponibilizado in http://saojoaodelreitransparente.com.br/organizations/view/87.

JORNAL DO SINDCOMÉRCIO: A beleza da sétima arte em 50 anos de história, dezembro de 2007, disponibilizado in http://saojoaodelreitransparente.com.br/organizations/view/87.

LELIS M.C.: Cine Glória de São João del-Rei: 60 anos dentro da história do cinema nacional, in CORGOZINHO, B.M.S., CATÃO, L.P. & PEREIRA, M.H.F. (org.): História e Memória do Centro-Oeste Mineiro: perspectivas, Belo Horizonte: Crisálida, 2009, 223 p.

O CORREIO: Inauguração do Cine Glória, edição de 31 de agosto de 1947. 

REVISTA MAXI: Entrevista: Lilinho, março de 1995, disponibilizado in http://saojoaodelreitransparente.com.br/organizations/view/87.

SILVA, H.C.: Cine Glória, Jornal da ASAP, São João del-Rei, s/d, disponibilizado in http://saojoaodelreitransparente.com.br/organizations/view/87.

SOBRINHO, A.G.: São João del-Rei - 300 anos de histórias, São João del-Rei: Do autor, 2006, 195 p.