sexta-feira, 8 de agosto de 2014

MAESTRO GUARANÁ ( Gustavo Nogueira de Carvalho [1911-1968] )

Por Francisco José dos Santos Braga


Fiz este trabalho de pesquisa para reverenciar a memória do grande músico são-joanense Maestro Guaraná, de quem muitos ainda nos lembramos, e para não deixar cair no esquecimento a sua obra imperecível. A ele, nosso preito de gratidão e eterno reconhecimento.
Dedico este artigo ao musicólogo, pesquisador e regente são-joanense Aluízio José Viegas.


I.  INTRODUÇÃO



Em outra matéria deste blog ¹ tratei de uma homenagem que o C.A.C. - Centro Artístico e Cultural prestou ao ilustre são-joanense Maestro Guaraná em maio de 1960, quando sob a presidência do Pe. Luiz Zver, conforme mencionado por Lincoln de Souza em seu discurso. Desde então vinha acalentando a ideia de produzir algo a respeito do ilustre conterrâneo, que encantou colegas de profissão, radialistas e ouvintes da Rádio Nacional por todo o Brasil.

Um complicador no meu propósito de estudar este meu biografado é que encontrei logo muita dificuldade na obtenção de dados fidedignos. Contactei três familiares do Maestro Guaraná que estão desenvolvendo uma pesquisa sobre ele, mas logo percebi que eles queriam informações, não estando dispostos a compartilhar o que possuíam de fonte primária. Após esperar pelas informações solicitadas durante três anos, decidi aventurar-me a produzir o presente trabalho.

Recentemente tive a sorte de deparar-me na Internet com a dissertação de Mestrado de Leandro Ribeiro Pereira, defendida em 2006, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Música, pela U.F.R.J., intitulada "RÁDIO NACIONAL do Rio de Janeiro - A música popular brasileira e seus arranjadores (Década de 1930 à década de 1960)" ², no mesmo ano em que se comemorava o septuagésimo aniversário da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Esse "achado" entusiasmou-me a escrever sobre Maestro Guaraná, com base em pesquisa já realizada pelo autor supracitado. Eis aqui minha homenagem póstuma ao ilustre são-joanense.

Neste trabalho será respeitada a grafia de época dos respectivos autores.


II.  NOTÍCIAS SOBRE O MAESTRO GUARANÁ COMO FUNCIONÁRIO DA RÁDIO NACIONAL


O autor da dissertação recorreu aos manuscritos musicais da Rádio Nacional dos cinco seguintes arranjadores selecionados: Radamés Gnattali (21/0l/1906-03/02/1988), Lyrio Panicali (26/06/1906-29/11/1984), Gustavo de Carvalho (16/04/1911-24/02/1968), César Guerra-Peixe (19/03/1914-15/11/1993) e Lindolfo Gomes Gaya (06/05/1921-15/09/1987), deixando claro, no Resumo (Abstract), que se tratava de "um trabalho de cunho historiográfico, motivado pelo desejo de preservação da música popular brasileira e, mais especificamente, do patrimônio musical legado pelos arranjadores que trabalharam na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Na Introdução do seu trabalho acadêmico, PEREIRA informa que, em 2005, graças ao projeto "Rádio Nacional: Informatização do acervo de partituras", foi possível resguardar o acervo da Rádio Nacional, que atualmente se encontra dividido em dois locais: na sede da Fundação Museu da Imagem e do Som (Lapa) e na sede da Rádio Nacional. Esse projeto tornou possível a digitalização fac-símile de 20.000 manuscritos musicais, composta em sua maioria por arranjos para a emissora e a edição musicológica de 100 arranjos selecionados.³  Dentre os 100 arranjos selecionados para editoração , constam duas edições inéditas: o arranjo de Tico-tico no fubá do Maestro Guaraná (um choro) e o arranjo de Sorriu para mim de Radamés Gnattali (um samba). Informa ainda que, como participante direto da execução desse projeto, foi o responsável pela editoração dos 100 arranjos selecionados, trabalho que foi concluído em 2006.

No Capítulo II da sua dissertação, intitulado "A trajetória dos arranjadores na Rádio Nacional", PEREIRA assim se refere a Gustavo Nogueira de Carvalho ("Guaraná"): "Dentre os cinco arranjadores selecionados neste trabalho para abordagem editorial, apenas Guaraná não consta da Enciclopédia da Música Brasileira (MARCONDES, 1998), tampouco do Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira (2006). Inicialmente, baseamo-nos nas informações contidas no Catálogo MIS (2005). Posteriormente, tivemos acesso a uma documentação primária e secundária, graças ao pesquisador Aluízio José Viegas. Gustavo de Carvalho nasceu na cidade de São João del-Rei, Minas Gerais, em 16 de abril de 1911, filho de Alfredo Ferreira de Carvalho e Henriqueta de Carvalho Nogueira. Foi batizado exatamente um ano depois na Paróquia de Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei. Em sua juventude, compôs inúmeras peças para revistas encenadas em sua cidade natal. 
                                O saudoso e querido maestro são-joanense, festejado compositor das partituras "S. João del-Rei" — "Terra das Maravilhas" e da opereta "Rosa Branca" (GUERRA, 1968: 192)  


III.  ATIVIDADES MUSICAIS DO MAESTRO GUARANÁ EM SUA CIDADE NATAL, ANTES DE SEU INGRESSO NA RÁDIO NACIONAL



A seguir, transcrevo seletivamente alguns trabalhos do maestro Guaraná, coligidos por [GUERRA, 1968] ⁵ : 
21-07-1931 — No palco do Teatro Municipal, realizou-se a "première" da engraçadíssima revista local, original de Xopotó dos Anjos (pseudônimo de Agostinho Azevedo), THE GOLD OF BRUGUDUM (A Mina do Brugudum) com música do  jovem maestro Gustavo de Carvalho, com a seguinte distribuição: BRUGUDUM, John Faliére — MINA, Srta. Clara dos Anjos — PREFEITURA, Srta. Branca das Neves — TURCO, Alcides Franco — MUNHENGA, Lulu Nogueira — FAUSTO DO BOI, êle mesmo. Esta revistinha teve agrado retumbante, pela graça de seu autor, apresentando um poema de são humorismo, dentro das normas da mais estrita moral. [GUERRA, 1968: 180]
21-02-1934 — "S. JOÃO DEL-REI, Musicada, Falada e Sincronizada", aparatosa revista local em 1 prólogo, 3 atos e 4 quadros, original do Dr. José Viegas, com 31 encantadores números de música do jovem e inspirado maestro conterrâneo, Gustavo de Carvalho. Lindos cenários de Ernesto de Oliveira, adereços de Marcondes Neves e Demeralino Sabino, maquinismo de Diógenes Rodrigues, efeitos de luz de João F. Coelho, luxuoso guarda-roupa de D. Carolina Nogueira e marcação e encenação de Antônio Guerra. Desempenharam papéis as Srtas. Aura Nogueira, Sueli Belo, Vivi Padilha, Sônia Guerra, Ruth Neves, Mazinha Gomes, Glorinha Carvalho, Adail Freitas, Hilda Rodrigues, Isis Carneiro, Carmen Franco, Lina Megalli, Gesinha Neves, Lúcia Guerra, Maria do Carmo Pereira e Eneida Batista — Senhores Samuel Santiago, Francisco Veloso, Alberto Nogueira, Edgar Teixeira, Ricardo Mauro, Alci Rangel, Rafael Arcanjo, Antônio Nazaret, Nelson Azevedo, Ernesto de Oliveira, Marcondes Neves, Altamiro Neves, Francisco Eugênio, José Gomide, Rodolfo Teixeira, Albertinho Nogueira, Luiz Nogueira, Ibraim Mattar, Antônio Carvalho e os meninos Murilo Viegas, Oswaldo Nogueira e Danilo Guerra. Constituiu verdadeiro acontecimento a representação desta revista. [GUERRA, 1968: 191] 
28-02-1934 — Segunda representação, pelo "Clube ARTUR AZEVEDO", da revista S. JOÃO DEL-REI, continuando o enorme sucesso da primeira vez, apresentando o Teatro Municipal desusado movimento, literalmente cheio, desde a platéia às torrinhas. Compareceu o "gran mondo" são-joanense que, com estrepitosas palmas, ovacionou  autor e compositor, chamando-os à cena. "O CORREIO", de 24-2-34, disse, em uma de suas apreciações não poder silenciar, em especial, o nome de Antônio Guerra, um dos mais fortes esteios do Clube, mostrando-se sempre tal qual é: dedicado e operoso, como acaba de dar prova com a marcação e encenação da revista S. JOÃO DEL-REI. [GUERRA, 1968: 191-192] 
Antônio Manoel de Souza Guerra  (GUERRA1968: 175)

09-03-1934 — Terceira representação da revista S. JOÃO DEL-REI, em crescente sucesso, principalmente quando da apresentação dos tipos populares: Marieta, por Altamiro Neves — Brugudum, José Gomide — Mocotoeiro, Francisco Eugênio - Muda, Marcondes — Sr. Alvear, Rodolfo Teixeira — Dr. Augusto, Ernesto de Oliveira e outros, todos òtimamente caracterizados pelo amador Alberto Nogueira. Êste foi sem dúvida um dos responsáveis pelo sucesso da revista e, na especialidade, é o único no gênero em nossa cidade. Constituiu grande efeito a deslumbrante apoteose "Salve Artur Azevedo". [GUERRA, 1968: 192]   
21-03-1934 — Quarta récita da revista S. JOÃO DEL-REI, figurando os novos tipos populares "Os Viúvos": Zé Vicente, Zé Azevedo e Melico. — Constituiu especial destaque a inspirada partitura de Gustavo de Carvalho, uma revelação, com seus 31 números de música que lograram calorosos aplausos. [GUERRA, 1968: 192]  
31-03-1934 — Quinta récita da revista S. JOÃO DEL-REI, na qual mais uma vez se realizou o famoso baile no "Prazer das Morenas".                                                                                               
Um dos números que alcançou retumbante sucesso, foi o sexteto "Os Picolés" que, em todas as representações, tem sido trisado. Veloso, sempre impagável de graça, no papel de Major Jacinto Policarpo, sendo brilhantemente secundado pelo cômico Samuel Santiago, no de Sr. Curtis e Edgar Teixeira, no de Pimenta.                                             
"O Dr. José Viegas, cultor apaixonado da arte, dirige, com rara dedicação o 'Clube Artur Azevedo', cujo elenco, formado de jovens de escol, continua proporcionando à cidade belas e risonhas noites e pode se orgulhar de sua obra teatral que venceu de um modo absoluto. Ao Dr. José Viegas e ao Clube foram oferecidas diversas poesias com referência à sua revista e ainda muitas flôres. A imprensa foi pródiga em referências elogiosas, além de muitas cartas e telegramas recebidos de pessoas amigas." [GUERRA, 1968: 192-193]  
Dr. José das Chagas Viegas (São Tiago, 23/07/1887-São João del-Rei, 21/04/1979) (GUERRA1968: 190)
10-10-1934 — ROSA BRANCA, delicada opereta, escrita especialmente para os amadores do "Artur Azevedo", pelo Capitão do 11º Regimento de Infantaria, Mendes de Holanda, com inspirada partitura do jovem Gustavo de Carvalho. Tôda a peça correu num ambiente de agrado geral, principalmente o último quadro, de uma beleza singular, embalada pela poesia da música, acarinhado pela vida estupenda que lhe dão os dois únicos personagens que aparecem, no desempenho harmonioso de Aura Nogueira e Jacy de Paula. Cenários lindos de Ernesto de Oliveira. A música do Guaraná (Gustavo de Carvalho) mais uma vez fêz vibrar a alma são-joanense, que ainda não se esqueceu da marcha dos "Picolés" e congêneres da revista S. JOÃO DEL-REI. O espetáculo foi em homenagem ao Sr. Coronel Ávila Lins, M.D. Comandante do 11º Reg. de Infantaria. Este espetáculo foi reprisado no dia 18 do mesmo mês. Publicamos a seguir , com o maior prazer, o BOLETIM DO 11º REG. DE INFANTARIA, de 13-10-1934: "Êste comando tendo assistido a uma peça teatral, levada à cena, nesta cidade, no dia 10 p. passado, reconhecendo ainda a ótima impressão causada a todos que a assistiram, pela harmonia e vida da parte de música, plena de acordes maviosos, como foi a opinião geral e, sabendo ter sido musicada pelo músico deste Regimento, Gustavo de Carvalho, elogia-o pelo bom gôsto e carinho com que se dedica à sua arte de música, para que continue a se esforçar assim com inteligência e os sentimentos de verdadeiro artista que é. Coronel Ávila Lins - Comandante. [GUERRA, 1968: 195] 
02-05-1935 — Nova temporada com a revista local do Dr. José Viegas, S. JOÃO DEL-REI, acrescida de novos números de música do maestro Gustavo de Carvalho e também de vários tipos locais: Dr. Augusto foi caricaturado por Rodolfo Teixeira — A. Reis, por Luiz Nogueira — Farmacêutico Luiz, por Ibrahim — Índio Câncio, por Alci Rangel — Dr. Reis, por Frazão e Carteiro Ciro, por Altamiro Neves. Esta revista foi reprisada no dia 15 de maio com o mesmo sucesso anterior.   
"A TRIBUNA", em seu número de 25-3-1934, fez a seguinte apreciação: "Com o teatro a cunha, foi levada à cena pela 3ª vez, com o mesmo ruidoso sucesso da 1ª representação, a revista local S. JOÃO DEL-REI. Houve uma surpreza. E foi uma verdadeira surpreza: o numero das "Sombrinhas". A mesma turma que, com tanta graça e com tanto entusiasmo vem triunfando na "Marcha dos Picolés", apareceu 4ª feira no novo numero. E seria injustiça se não dissessemos que "Sombrinhas" se rivalisa com a "Marcha dos Picolés". Bem marcada, otima musica. E a plateia não poude deixar de bisa-la. "O Bonfim", "As Gameleiras", como sempre, fizeram delirar a plateia. A Sonia Guerra, a genial Sonia dos nossos palcos, na sua indumentaria verde, provoca um 'frisson' de entusiasmo na assistencia quando aparece graciosa a cantar: 
Por todos sou querida   
Pelos meus ares saudaveis, 
La do alto se descortina 
Panoramas admiraveis... 
A "endiabrada turma dos picolés", a turma vermelho e branco, no seu numero, vale por todo um retumbante sucesso. As opiniões são unanimes a respeito da "Marcha dos Picolés". E nem poderia ser de outro modo.   Quando aquelas 6 surgem à cena e entoam: 
Quer faça frio ou calor 
Chupamos sempre o picolé 
Dinheiro para isto ganhamos 
Com alegria — olé! 
Não ha refresco, nem limonada 
Que acalme este calor; 
Só no sorvete "picolé" 
Encontramos bom sabor..., 
as palmas e os pedidos de repetição se fazem ouvir desde as torrinhas às cadeiras."— Êste número de maior sucesso da revista era admiràvelmente interpretado pelas galantes meninas: Glorinha Carvalho, Suely Belo, Hilda Rodrigues, Isis Carreiro, Sônia Guerra e Lúcia Guerra. [GUERRA, 1968: 197]  
18-05-1935 — 8ª e última representação da revista S. JOÃO DEL-REI, em festa artística do jovem e inspirado autor da partitura, maestro Gustavo de Carvalho, dedicado à classe musical de S. João del-Rei, representada pelas seguintes corporações: SOCIEDADE DE CONCERTOS SINFÔNICOS, presidida pelo Dr. Garcia de Lima — ORQUESTRA RIBEIRO BASTOS, regência do maestro João Pequeno — ORQUESTRA LIRA SÃO-JOANENSE, regência do maestro Fernando Caldas — BANDA DO 11º REGIMENTO DE INFANTARIA, regência do maestro Tenente João Cavalcante — BANDA RIBEIRO BASTOS, regência do maestro José Quintino — BANDA JOSÉ TEODORO, regência do Maestro Teófilo Rodrigues — JAZZ CAPITÓLIO, regência do Maestro Milton Couto e JAZZ JUCA HILÁRIO, regência do maestro José Hilário. Com todo este grande noticiário, confirmamos o bom gosto e a competência do autor, Dr. José Viegas e a inspiração musical de Gustavo de Carvalho. 

Ten. João Cavalcante (Passagem de Mariana, 18/05/1902-Petrópolis, 14/08/1985)  foi um dos grandes valôres que a nossa cidade conquistou e aqui realizou o milagre de organizar a maior e melhor orquestra Sinfônica de cidades do interior de Minas. Foi também, por muitos anos, regente da Banda de Música do 11º Regimento de Infantaria. Também aqui fundou o Orfeão da Escola Normal (Colégio Nossa Senhora das Dores) (GUERRA1968: 179)


Houve continuação do nôvo número CRUZEIRO DO SUL, cantado por Baduca, Glorinha, Suely, Sônia e Lúcia, que também obteve ruidoso sucesso. Destacamos ainda os números de maior sucesso: A VERDUREIRA cantado maviosamente por Vivi Padilha — MULATA, por Masinha Gomes — PIROLITO, por Antônio Carvalho — ZÉ DA CARNE, por Nelson Azevedo — TOTÔNIO, por Altamiro Neves e obailado ROUGE E BATON: "Rouge": Baduca, Carvalho, Fé Ribeiro — "Baton": Isis Carrreiro, Hilda Rodrigues e Suely Belo. Com todo êste grande noticiário, confirmamos o bom gôsto e a competência do autor, Dr. José Viegas e a inspiração musical de Gustavo de Carvalho. [GUERRA, 1968: 198] 
16-09-1935 — Grandioso espetáculo para comemorar o 20º aniversário de fundação do "CLUBE ARTUR AZEVEDO", com a burleta regional em 2 atos, de Marques Pôrto e Ari Pavão, CABOCLA BONITA, com majestosa partitura musical escrita pelo grande e inspirado maestro brasileiro, Dr. Assis Pacheco, com caprichosa instrumentação do maestro Gustavo de Carvalho, que a ensaiou, auxiliado pelo jovem músico Vicente Valle. Chamou especialmente a atenção o lindo número AVE MARIA, cantado a cinco vozes. A distribuição era a seguinte: Rosinha, Vivi Padilha — Laurinha, Maria do Carmo — Generosa, Nenem Assunção — D. Ana, Cira Assunção — Caiuby, Samuel Santiago — Coronel, Altamiro Neves — Professor, Alberto Nogueira — Rogério, Edgar Antunes — Zacarias, João Faleiro e José Luiz, Francisco Eugênio. O encantador cenário desta peça foi pintado em Belo Horizonte, pelo hábil cenógrafo mineiro Ary Caetano. [GUERRA, 1968: 199-200]  
22.12.1938 — TERRA DAS MARAVILHAS, revista local em 3 atos, em arreglo de Antônio Guerra e Alberto Nogueira com inspirada partitura musical do querido maestro Gustavo de Carvalho (Guaraná) em grandioso espetáculo dedicado ao ilustre Prefeito Dr. Antônio das Chagas Viegas. A direção musical e regência da orquestra estiveram a cargo de Vicente Valle, uma das últimas revelações no cenário musical da cidade. Solo e côros ensaiados, ao piano, pela gentil Srta. Ceci Santos. A decoração do ambiente e pintura dos lindos cenários estêve a cargo do Sr. José Trindade ("José Português"), apreciado artista cenógrafo conterrâneo. De início, na frente do pano de bôca, aparece a galante Conceição Ferraz e diz os versos do papel "Revistinha", e, logo a seguir, Alberto Nogueira e Rodolfo Teixeira, na comperagem da peça, nos papéis de Caradura e Baco, assumem o comando dos demais números. Assim foram desfilando PINGUINHA, por João Rocha; MANGHARI, por Antônio Carvalho; CHAMPAGNE, Lúcia Guerra; PARATI, Dalmir Gomes; PAU D'ÁGUA, José Farnese; TROVADOR, Albertinho Nogueira; SONHO DE AMOR, Sônia Guerra; DIANA, Eleuzina Barbosa; CERES, Lígia Pereira; VESTA, Mazinha Gomes; JUNO, Benedita Silva; MINERVA, Lúcia Guerra; e VÊNUS, Maria do Carmo Pereira. No segundo ato, lindo bailado SOL, ESTRÊLA E LUA, por Lúcia, Lígia e Eleuzina; BRASIL, Albertinho Nogueira; MINAS GERAIS, Iraci Gonçalves; S. JOÃO DEL-REI, Sônia Guerra; LAVADEIRAS, por Lúcia, Maria do Carmo, Mazinha e Benedita. TOTÔNIO DA POLÍCIA, Luiz Nogueira; CASINHA DE SAPÉ, Eleuzina Barbosa; SAUDADE, Mazinha e o bailado BILHETE AZUL, com que termina o ato debaixo de uma estrondosa salva de palmas. 3º ATO - FORASTEIRO, Pedro Mota; JECA, Marques da Silva; TERRA BRASILEIRA, Iraci Gonçalves; O ÓRFÃO, poesia por Antônio Guerra; AS GATINHAS, dueto por Conceição Ferraz e Araci Silva; SAUDAÇÃO FINAL, por Antônio Guerra e HINO A S. JOÃO, por João Rocha. Majestosa homenagem ao 11º Regimento de Infantaria, em brilhante interpretação de Sônia Guerra com luxuoso guarda-roupa de honra por diversas amadoras. 
O espetáculo, conforme registrou a imprensa local, causou geral encanto pela luxuosa encenação e rigorosa marcação do amador Antônio Guerra, terminando sempre com palmas aos autores do poema e da música. [GUERRA, 1968: 212-213]  
29.12.1938 — Reprise da revista local TERRA DAS MARAVILHAS, com o grande desfile dos Clubes de Futebol em entusiástica defesa - MINAS: Maria do Carmo e José Farnese - ATHLETIC, Sônia e Albertinho Nogueira. Admirável atuação do CONTINENTAL JAZZ. A música do samba SAUDADE foi de autoria do Sr. Lourival  Oliveira, músico da Escola Militar do Rio de Janeiro, que a escreveu em uma oferta ao seu amigo Guaraná. O "DIÁRIO DO COMÉRCIO" em sua apreciação terminou com a seguinte referência: "Músicas estupendas, belíssimas composições do Guaraná, o estimado conterrâneo Gustavo Carvalho, com boa execução do CONTINENTAL JAZZ, sob a regência de Vicente Valle, que obteve essa gentileza de Milton Couto. Abrilhantando o conjunto musical estêve o magnífico violino do Major Buis. [GUERRA, 1968: 213]  
PEREIRA informa que "Gustavo Carvalho trazia, portanto, substancial experiência na composição de música para revistas teatrais ao se fixar no Rio de Janeiro, onde veio a atuar como arranjador no período áureo da Rádio Nacional em inúmeros programas. Foi contratado pela emissora no dia 1º de julho de 1945 como violinista e em 4 de julho de 1949 foi promovido para a função de arranjador. Em 1º de outubro de 1954 o nome do cargo passa para maestro e arranjador. Em 1º de agosto de 1955, outra mudança, agora para orquestrador, e a 1º de setembro de 1960 a última mudança de cargo, de orquestrador para maestro arranjador nível 20. De acordo com sua ficha funcional, o maestro deixou a Rádio Nacional em 6 de novembro de 1967, e no carnaval de 1968, exatamente no dia 24 de fevereiro, quando se mudava para São João del-Rei, Gustavo de Carvalho, falece no Hospital de Petrópolis, em conseqüência de um acidente rodoviário ocorrido na Rio-Petrópolis. 
Segundo seu amigo, Aluízio José Viegas, Guaraná esperava a aposentadoria para poder voltar definitivamente para sua cidade natal, onde sonhava continuar a exercer suas atividades musicais."


III.  ATIVIDADES MUSICAIS PARALELAS ÀS EXERCIDAS NA RÁDIO NACIONAL

PEREIRA ainda relata que, "regente de seu próprio conjunto, foi responsável por arranjos de gravações famosas, como Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro, lançada pelo selo Copacabana, para o qual trabalhou por um longo período. Foi o arranjador de todas as faixas do LP Isto é Lamartine (1963) interpretadas pelo grupo vocal Os Rouxinóis, com composições de Lamartine Babo. Como compositor, foi parceiro de Lourival Faissal e Airton Amorim em Havaiana; de Jararaca, em Ai Luiza, batucada de grande sucesso gravada pela Continental na voz de Emilinha Borba, além das composições Como dói, Melancolia, Continental, Recordamos melhores tempos, Canto dos cisnes, Eterna criança, Margarida, Cafuné, entre outras."


PEREIRA, no Capítulo IV de sua dissertação, intitulado Os Arranjos na Rádio Nacional, citou ainda a entrevista que o cantor e compositor João Roberto Kelly concedeu ao RJ-TV em 9 de janeiro de 2004 (telejornal da Rede Globo de Televisão), dizendo que os cancionistas necessitavam que alguém fizesse a transcrição de suas composições. Na passagem a seguir, Kelly relata um fato envolvendo o compositor Lamartine Babo e o Maestro Guaraná, a saber: 
O Lamartine, assim que terminava de compor uma música, recebia a visita do maestro Guaraná, um maestro muito famoso na gravadora Copacabana. Ele chegava lá e, munido de sua partitura, escrevia a melodia do Lamartine. O Lalá ditava e ele escrevia. Assim nasceu o Hino do Fluminense e do Flamengo. Lamartine era América doente. O Hino do América, na sua primeira parte, é uma música americana. Ele tinha essa música guardada no coração. Não que ele fosse plagiar, mas acho que isso acontece... (RJ-TV, 2004). 
Além disso, na sua pesquisa em busca dos passos do Maestro Guaraná, PEREIRA obteve outro relato sobre o Maestro Guaraná do mesmo Kelly, a saber: 
A gravadora Copacabana pertencia aos Irmãos Vitale, e o maestro Guaraná era um de seus maestros de frente. Quando a editora Vitale encomendou ao Lamartine Babo que fizesse os hinos dos clubes, alugou um apartamento para que ele tivesse todo o conforto no Hotel Guanabara, que ficava próximo à gravadora, e a história que me contaram é que à medida que Lamartine ia compondo aquelas coisas belíssimas que ele fazia, o Vitale pedia ao Guaraná que fosse lá anotar as melodias, fato comum na época, o autor fazia uma música, e o maestro ou algum músico escrevia a melodia, porque não havia gravador (Kelly, novembro de 2006). 
PEREIRA, ao final do Capítulo IV, fez questão de referir-se ao músico são-joanense que conviveu com o Maestro Guaraná e que contribuiu enormemente para completar os seus dados biográficos: "Na reta final de nosso trabalho, conseguimos fazer contato com responsáveis pela cultura de São João del-Rei (cidade natal do maestro Guaraná). O Sr. Aluízio José Viegas, um violoncelista conterrâneo e contemporâneo do maestro, conheceu Gustavo de Carvalho nos anos sessenta. A propósito do assunto que estamos agora desenvolvendo, contou-nos que certa vez, em uma das “idas” de Gustavo de Carvalho a São João del-Rei, numa “rodinha” que se fazia no Café Ideal, o maestro comentava sobre suas atividades no Rio de Janeiro, e afirmou:  
Muitos "compositores" que estavam em evidência da música popular não liam e nem sabiam música. Cantavam ou então tocavam ao violão ou ao piano (que executam de ouvido), e ele é que escrevia não só a notação musical como harmonizava, corrigia frases às vezes desconexas. Enfim, ele é que fazia realmente a música. Quando o "compositor" não tocava nenhum instrumento, apenas cantarolava, aí ficava difícil, pois a cada repetição não se cantava a mesma coisa. Ficava apenas a idéia. Quando tocava algum instrumento, violão ou piano, aí havia mais facilidade, pois se tinha uma melhor idéia do que o "compositor" desejava. Porém essa atividade ficava esquecida e não era divulgada. O "compositor" pagava pelo trabalho e avocava somente para ele todo o mérito. Entre esses "compositores" figuravam Ary Barroso e Lamartine Babo."
PEREIRA ainda faz alguns registros biográficos importantes do Maestro Guaraná, conforme os que seguem: "Quanto ao maestro Gustavo de Carvalho, fomos informados por seu amigo, Aluízio José Esteves (sic) , que ele teria estudado com o maestro João Cavalcante (com quem Guaraná trabalhava), que por sua vez, teria estudado em Belo Horizonte com um importante maestro e no Rio de Janeiro com Francisco Braga. Na Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei, Gustavo de Carvalho participou como violinista, também sob a regência do maestro João Cavalcante. Guaraná fez muitos arranjos para a banda militar na qual tocava, e compôs para muitas revistas, que eram encenadas em sua cidade natal. Preparando-se para retornar à sua terra natal, o que aconteceria após a sua aposentadoria, ele compôs algumas operetas. Com todas estas informações, podemos supor que o maestro Guaraná, também atuava em ambas as vertentes musicais.



IV.  COMENTÁRIOS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



¹  Cf. "Adeus à vida literária em 1961 do poeta e jornalista são-joanense Lincoln de Souza" in http://bragamusician.blogspot.com.br/2011/08/adeus-vida-literaria-em-1961-do-poeta-e.html   Naquele trabalho escrevi: "Gustavo de Carvalho, conhecido por Maestro "Guaraná", nasceu em São João del-Rei, tendo-se tornado arranjador e regente da Rádio Nacional na década de 50. Os arranjos do Maestro "Guaraná" eram arrojados, bem como primavam pela qualidade, bom gosto e singularidade, podendo-se dizer que se destacavam das versões de outros arranjadores para as mesmas músicas. Foi ele quem teve a feliz ideia de reunir os instrumentistas associados ao Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro e de produzir o LP de 10 polegadas intitulado "Pérolas da Música Brasileira", lançado com o selo Copacabana, do qual tenho a honra de possuir um exemplar."

Informo ainda que partiu do Maestro Guaraná a ideia de produzir o LP "Pérolas da Música Brasileira", ficando também responsável pela regência de todas as peças e por todos os arranjos. As faixas desse LP de 1955 são as seguintes: Despertar da Montanha, Carinhoso, Linda Flor, Feitiço da Vila, Do Sorriso da Mulher nasceram as Flores, Bentevi Atrevido, Na Baixa do Sapateiro e Tico-tico no Fubá.

Além disso, "Guaraná" e sua orquestra participaram da gravação de um vinil lançado pela Polydor em 1956, intitulado "Recordando...", com oito faixas dedicadas a clássicos da música popular brasileira. Ali encontram-se as seguintes pérolas: Branca (valsa de Zequinha de Abreu), Despertar da Montanha (tango de Eduardo Souto), Eponina e Turbilhão de Beijos (valsas de Ernesto Nazareth), Pintinho no Terreiro (choro de Zequinha de Abreu), Do Sorriso da Mulher nasceram as Flores (valsa de Eduardo Souto), Tarde em Lindoya (valsa de Zequinha de Abreu e Plínio Martins) e Brejeiro (choro de Ernesto Nazareth).

"Guaraná" ainda participou com o arranjo para a música "Caminhemos" num disco com 8 faixas que podemos considerar histórico dentro da indústria fonográfica brasileira, "Quando os Maestros se encontram com ÂNGELA MARIA" (1957), por ter sido um dos primeiros discos de 12 polegadas lançado pela Copacabana. Os outros Maestros que participaram da antológica gravação eram: Severino Araújo, Lindolph Gaya, Renato de Oliveira, Léo Peracchi, Lyrio Panicalli, Gabriel Migliori e Sylvio Mazzucca.
Cf. in http://www.toque-musicall.com/?cat=1184

²  Cf. http://pt.scribd.com/doc/208423826/Radio-Nacional-dissertacao-1-Final

³  O número total de partituras que foram doadas à Fundação Museu da Imagem e do Som (em sua maioria manuscritos musicais) chega a 34.555 partituras, das quais 20.000 foram selecionadas para serem digitalizadas.

  A partir do conjunto dos 100 arranjos editados pelo projeto mencionado na Introdução, PEREIRA pôde fazer o levantamento da produção de cada arranjador da Rádio Nacional, da qual 13 arranjos levantados foram feitos por "Guaraná", a saber: A Banda, de Chico Buarque, para o programa Varig, em 13/11/1966; A Chuva caiu, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, para o programa Ângela Maria canta, em 20/10/1955; Adeus, de Maysa Gigueira e Monjardim Matarazzo, para o programa César de Alencar, em 05/06/1954; Cabelos Brancos, de Herivelto Martins e Marino Pinto, para o programa Rádio-teste, em 26/04/1949; Cidade Maravilhosa, de André Filho, para o programa Viva marinha, em 15/11/1958; Eu nasci no morro, de Ary Barroso, para o programa Clube do Samba, em 02/01/1957; Hei de seguir teus passos, de Waldemar Henrique, programa n.d., em 26/03/1954; Hino do América Futebol Clube, de Lamartine Babo, programa n.d., s/d (bis); Manhã de carnaval, de Luiz Bonfá e Antônio Maria, no programa Canções de encurtar caminho, em 16/07/1959; Nem ela, de Ary Barroso, no programa César de Alencar, em 27/03/1956; No rancho fundo, de Ary Barroso e Lamartine Babo, no programa Como é linda, em 30/07/1951; Tamba-tajá, de Waldemar Henrique, no programa Dicionário Toddy, em abr/1948.

Pesquisando nas fichas referentes aos programas, PEREIRA complementarmente localizou várias listas de músicas e arranjos utilizados nos programas e, com certa frequência, o nome do arranjador que os produziu. Foi assim que rastreou as seguintes participações de "Guaraná" na Rádio Nacional: no programa Combatentes do Brasil, com arranjos, em 08/05/1951; em "Variados" (?), com jingle e publicidade, em parceria com Guerra-Peixe, Gaya e Radamés; no programa Quando os maestros se encontram, com arranjos, em parceria com Guerra-Peixe, Panicali e Radamés, em 02/07/1954; e no programa Rádio-teste, com arranjos, s/d.
Obs.: Às vezes, o autor encontrou, em vez do nome do programa, a indicação "Variados", sem saber do que é que se trata.

Quando PEREIRA examinou a lista contendo os 20.000 manuscritos musicais (pertencentes à Coleção Rádio Nacional), verificou que "Guaraná" foi responsável por 1.015 arranjos/composições. Para que o leitor tenha uma ideia da produção dos outros quatro arranjadores/compositores da Rádio Nacional, apresento a seguir a produção deles: Gaya (481), Lyrio Panicali (675), Guerra-Peixe (198) e Radamés Gnattali (1.653).

  GUERRA, Antônio Manoel de Souza: Pequena História de Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei - 1717 a 1967, Juiz de Fora: Sociedade Propagadora Esdeva - Lar Católico, 327 p. Embora o autor da mencionada dissertação tenha abreviado o texto das  efemérides, entendo, pelo interesse histórico que têm, que devo reproduzi-las na íntegra.

⁶  Consta que o Maestro Guaraná estava se dirigindo a São João del-Rei, onde seria jurado no carnaval de 1968.

  É provável que se trate do amigo do Maestro Guaraná, o musicólogo são-joanense Aluízio José Viegas, já citado anteriormente em seu trabalho e a quem dedico o presente trabalho.

⁸  Incomodado com o hiato (1939-meado de 1945) existente na vida do Maestro Guaraná, não explicado pela crônica da vida teatral na histórica cidade de São João del-Rei feita por Antônio Guerra, nem pelo historiador Sebastião de Oliveira Cintra, recorri a um dos informantes de PEREIRA e meu. O musicólogo, pesquisador e regente Aluízio José Viegas trouxe a meu conhecimento que "Nhonhô Guaraná" (esse era o apelido de família do meu biografado), durante esse período era assistente do Maestro João Cavalcante, regente da Banda do 11º Regimento de Infantaria, sediado em São João del-Rei, colaborando com sua habilidade de compor arranjos e tocando, além do violino, alguns instrumentos de sopro.

Contou-me ele ainda que, certa vez, recebeu recado de Sílvio Assis, proprietário do "Palácio da Música", de que recebera uma raridade sob a regência do Maestro Arturo Toscanini. Tendo se dirigido àquele estabelecimento depois do estafante serviço diário na "Farmácia Guimarães", Aluízio observou pela vitrine que Sílvio conversava com um senhor. Bateu na vitrine e foi recebido pelo proprietário da casa comercial. Ao entrar, cumprimentou rapidamente o visitante que acompanhava Sílvio na audição de operetas, recebeu a raridade (9 Sinfonias de Beethoven em 7 LPs da RCA Victor com a Orquestra Sinfônica da NBC sob a regência de Arturo Toscanini) e se retirou, ansioso por chegar à sua residência para degustar a raridade. No dia seguinte, recebeu na farmácia a visita do ilustre visitante que conhecera na véspera, pedindo desculpas por não ter-lhe dado a devida atenção. Identificou-se como "Guaraná", da Rádio Nacional. Aluízio retrucou que já o conhecia de nome e que conhecia as referências elogiosas a respeito do excelente trabalho que ele desenvolvia na Rádio Nacional, dignificando e engrandecendo o nome de sua cidade natal. Após esses salamaleques, "Guaraná" comentou que, após seu encontro, Sílvio fez as melhores referências a seu interlocutor, o que o levou a desculpar-se e a se explicar: "Estava ocupado com a audição de operetas, fora do expediente, de propósito, quando você bateu na vitrina. Pensei: "Esse chato vem a esta hora interromper minha audição de operetas com a compra de algum disco de péssima qualidade." Qual não foi a minha surpresa quando constatei que você adquiria as 9 Sinfonias de Beethoven! Venho aqui, portanto, desculpar-me pelo preconceito inicial."
A minha observação é que essa atitude nobre e digna das grandes almas uniram esses dois gigantes da música, durante os poucos anos que ainda restavam a "Guaraná".

Segundo Viegas, após a aposentadoria, "Guaraná" tinha alguns planos para a vida musical de São João del-Rei, que infelizmente não chegou a concretizar por superveniente golpe do destino: a fundação de um grupo de música de câmara, para a gravação de músicas de músicos populares são-joanenses, entre os quais se destacavam: José Lino, compositor da "Marcha Lira Sanjoanense", João da Mata, João Feliciano de Souza, José Cantelmo Júnior e José Raimundo de Assis, compositor de "Noite de Luar". Na Sociedade de Concertos Sinfônicos, popularmente conhecida por "Sinfônica", contaria com a colaboração do teatrólogo Dr. José Viegas, onde ele próprio desenvolveria arranjos de operetas. Sonhava também com uma melhor qualificação dos músicos instrumentistas são-joanenses e se propunha a habilitá-los para enfrentarem os grandes palcos nacionais ou estrangeiros.

Viegas informou ainda que a Orquestra Lira Sanjoanense possui em seu acervo todas as partes de uma valsa do Maestro Guaraná, intitulada "Nair" (nome da esposa dele, a quem dedicou a peça).

Por fim, Viegas ainda comentou, sem vínculo aos planos de "Guaraná", que sua terra natal possuíra um grupo regional que fez diversas apresentações no palco do auditório da ZYI - 7, Rádio São João del-Rei, com excelente repertório popular, cuja formação era a seguinte: Pedro de Souza (regência e flauta), Emílio Viegas (flauta), Luís França (violino), Carmélio de Assis Pereira (violino), Geraldo Lima (violino), João Simas (clarineta), José Lino de Oliveira França (trombone e bombardino). Viegas comentou ainda que, nos últimos tempos, perto da dissolução do grupo regional, participaram ainda Geraldo Barbosa de Souza (contrabaixo) e ele próprio.